O que é a cárie dentária

A cárie dentária é uma doença infecciosa crônica que destrói progressivamente os tecidos duros do dente — esmalte, dentina e, em casos avançados, a polpa. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cárie afeta cerca de 2,5 bilhões de pessoas no mundo, sendo a condição de saúde mais prevalente no planeta.

No Brasil, os dados do levantamento SB Brasil do Ministério da Saúde revelam que 56,5% das crianças de 12 anos apresentam pelo menos um dente cariado, perdido ou restaurado. Entre adultos de 35 a 44 anos, a média de dentes afetados sobe para 16,75 por pessoa.

A boa notícia é que a cárie é amplamente prevenível. Com higiene adequada, alimentação consciente e acompanhamento profissional, é possível manter os dentes saudáveis por toda a vida.

Como a cárie se forma

O processo de formação da cárie envolve quatro fatores simultâneos:

  • Bactérias cariogênicas — principalmente Streptococcus mutans e Lactobacillus, que colonizam a superfície dos dentes
  • Substrato (açúcar) — carboidratos fermentáveis que servem de alimento para as bactérias
  • Dente suscetível — superfícies com fissuras, esmalte enfraquecido ou áreas de difícil higienização
  • Tempo — exposição prolongada e repetida dos dentes ao ambiente ácido

As bactérias metabolizam os açúcares e produzem ácidos orgânicos (principalmente ácido lático). Esses ácidos reduzem o pH da superfície dental para valores abaixo de 5,5, iniciando a desmineralização do esmalte. Quando a perda mineral supera a capacidade de remineralização da saliva, forma-se a lesão de cárie.

Estágios da cárie

EstágioCaracterísticaReversível?Sintomas
Mancha brancaDesmineralização inicial do esmalteSimNenhum
Cárie em esmalteCavitação superficialNãoGeralmente assintomático
Cárie em dentinaLesão atinge a dentinaNãoSensibilidade a doces e frio
Cárie profundaPróxima à polpaNãoDor espontânea
Comprometimento pulparInfecção da polpa (nervo)NãoDor intensa, abscesso

Fatores de risco para cárie

Alguns fatores aumentam significativamente a probabilidade de desenvolver cáries:

  • Alto consumo de açúcar — a frequência importa mais que a quantidade. Lanches açucarados entre as refeições são especialmente danosos
  • Higiene bucal inadequada — escovação insuficiente ou ausência do uso de fio dental permite o acúmulo de placa bacteriana
  • Xerostomia (boca seca) — redução do fluxo salivar por medicamentos, radioterapia ou doenças sistêmicas
  • Aparelhos ortodônticos — dificultam a higienização e criam áreas retentivas de placa
  • Recessão gengival — expõe a raiz do dente, que tem menor resistência à desmineralização
  • Deficiência de flúor — ausência de flúor na água ou no creme dental reduz a capacidade de remineralização

Crianças e idosos são os grupos mais vulneráveis. Crianças pela dieta rica em açúcares e coordenação motora em desenvolvimento; idosos pela redução do fluxo salivar e exposição radicular.

Palpitano — Palpites em Tempo Real

Prevenção da cárie

A prevenção da cárie se baseia em três pilares fundamentais: higiene bucal, controle da dieta e uso de flúor.

Higiene bucal correta

A escovação correta é o pilar mais importante da prevenção. Recomendações baseadas em evidências incluem:

  • Escovar os dentes pelo menos duas vezes ao dia com creme dental fluoretado (1.000 a 1.500 ppm de flúor)
  • Usar fio dental diariamente para remover a placa bacteriana das áreas interproximais
  • Escovar por no mínimo dois minutos, garantindo que todas as superfícies sejam higienizadas
  • Trocar a escova a cada três meses ou quando as cerdas estiverem deformadas
  • Limpar a língua com raspador ou a própria escova para reduzir a carga bacteriana

Controle alimentar

A relação entre dieta e cárie está bem estabelecida na literatura científica. Estratégias eficazes:

  • Limitar o consumo de açúcar a menos de 10% das calorias diárias (recomendação da OMS), idealmente abaixo de 5%
  • Evitar alimentos pegajosos e ricos em açúcar entre as refeições
  • Preferir lanches como frutas frescas, queijos, oleaginosas e vegetais crus
  • Beber água após as refeições para ajudar na limpeza mecânica
  • Mastigar chiclete sem açúcar com xilitol para estimular a produção de saliva

Flúor

O flúor atua de três formas na prevenção da cárie:

  • Inibe a desmineralização — reduz a dissolução do esmalte em ambiente ácido
  • Promove a remineralização — facilita a incorporação de cálcio e fosfato no esmalte
  • Ação antimicrobiana — interfere no metabolismo das bactérias cariogênicas

Fontes de flúor recomendadas:

FonteConcentraçãoFrequência
Creme dental1.000–1.500 ppm2–3x/dia
Água fluoretada0,7 ppmContínua
Bochechos com flúor0,05% NaFDiária (conforme indicação)
Verniz de flúor22.600 ppm2–4x/ano (profissional)
Gel de flúor12.300 ppmSemestral (profissional)

Selantes

Os selantes de fóssulas e fissuras são resinas aplicadas nas superfícies oclusais dos dentes posteriores. Estudos mostram que selantes reduzem a incidência de cárie em até 80% nos dois primeiros anos após a aplicação. São especialmente indicados para crianças e adolescentes logo após a erupção dos molares permanentes.

Tratamentos para cárie

O tratamento depende do estágio da lesão. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais conservadora será a abordagem.

Remineralização (lesões iniciais)

Manchas brancas — lesões de cárie em estágio inicial — podem ser revertidas com:

  • Aplicação profissional de flúor (verniz ou gel)
  • Uso diário de creme dental com alto teor de flúor (5.000 ppm, sob prescrição)
  • Controle rigoroso da dieta
  • Melhora da higiene bucal

Restauração (cavitações)

Quando há cavitação, o tratamento envolve a remoção do tecido cariado e preenchimento com material restaurador. Os materiais mais utilizados são:

  • Resina composta — cor do dente, mais estético, indicado para dentes anteriores e posteriores. Custo médio: R$ 150 a R$ 500 por dente
  • Amálgama de prata — durável e resistente, porém em desuso por questões estéticas e ambientais (mercúrio)
  • Ionômero de vidro — libera flúor, indicado para lesões cervicais e dentes decíduos. Custo médio: R$ 100 a R$ 300
  • Cerâmica (inlay/onlay) — alta resistência e estética, indicada para cavidades extensas. Custo médio: R$ 800 a R$ 2.500

Tratamento endodôntico (canal)

Quando a cárie atinge a polpa dentária, pode ser necessário realizar o tratamento de canal. O procedimento envolve:

  • Remoção da polpa infectada
  • Limpeza e desinfecção dos canais radiculares
  • Preenchimento com material obturador (guta-percha)
  • Restauração definitiva do dente (geralmente com coroa protética)

O custo do tratamento de canal varia de R$ 500 a R$ 2.000, dependendo do dente e do número de canais.

Exodontia (extração)

Em casos de destruição extensa, onde não há estrutura dental suficiente para restauração, a extração pode ser a única opção. Após a extração, é fundamental planejar a reabilitação com prótese ou implante para evitar perda óssea e deslocamento dos dentes adjacentes.

Cárie em crianças

A cárie na primeira infância (antes dos 6 anos) merece atenção especial. A chamada cárie de mamadeira ocorre quando a criança adormece com mamadeira contendo líquidos açucarados ou leite, mantendo os dentes em contato prolongado com açúcares.

Medidas preventivas para crianças:

  • Iniciar a higiene bucal antes da erupção dos dentes, com gaze umedecida
  • Usar creme dental fluoretado desde o primeiro dente (quantidade: grão de arroz até 2 anos, ervilha a partir de 3 anos)
  • Evitar que a criança adormeça com mamadeira após a erupção dos dentes
  • Primeira consulta ao dentista até o primeiro ano de vida
  • Aplicação profissional de flúor conforme orientação do dentista

Diagnóstico da cárie

O diagnóstico precoce é essencial para tratamentos menos invasivos. Os métodos incluem:

  • Exame clínico visual — inspeção com espelho e sonda exploradora
  • Radiografia periapical ou interproximal (bitewing) — detecta cáries interproximais não visíveis clinicamente
  • Fluorescência a laser (DIAGNOdent) — mede a fluorescência do tecido dental, identificando desmineralização precoce
  • Radiografia digital — menor dose de radiação e melhor definição de imagem

A recomendação é realizar consultas odontológicas a cada seis meses para exame clínico e radiográfico, permitindo a detecção precoce de lesões.

Mitos sobre a cárie

Existem diversos mitos que circulam sobre a cárie dentária. Veja o que é verdade e o que é mito:

  • "Açúcar é a única causa da cárie" — Mito. A cárie é multifatorial; requer bactérias, substrato, dente suscetível e tempo
  • "Cárie em dente de leite não precisa tratar" — Mito. A cárie em dentes decíduos pode causar dor, infecção e comprometer o dente permanente em formação
  • "Flúor é perigoso" — Mito (em doses recomendadas). A fluorose ocorre apenas com ingestão excessiva durante a formação dos dentes
  • "Escovação forte limpa melhor" — Mito. Força excessiva desgasta o esmalte e provoca recessão gengival

Perguntas Frequentes

A cárie pode se curar sozinha?

Apenas lesões no estágio inicial de mancha branca podem ser revertidas com remineralização (flúor, higiene e controle de dieta). Uma vez que houve cavitação — ou seja, perda de estrutura com formação de buraco — o dano é irreversível e requer tratamento restaurador. Por isso a importância do diagnóstico precoce em consultas regulares.

Quantas vezes por dia devo escovar os dentes para prevenir cárie?

A recomendação da Associação Brasileira de Odontologia (ABO) é escovar os dentes pelo menos duas vezes ao dia com creme dental fluoretado, sendo a escovação antes de dormir a mais importante. O uso diário de fio dental complementa a higiene, removendo a placa bacteriana das áreas entre os dentes, onde a escova não alcança.

Cárie é contagiosa?

As bactérias causadoras da cárie, principalmente o Streptococcus mutans, podem ser transmitidas de pessoa para pessoa por meio da saliva — como ao compartilhar talheres, soprar alimentos ou beijar na boca de bebês. No entanto, a presença das bactérias sozinha não é suficiente para causar cárie; é necessário o conjunto de fatores (dieta, higiene, tempo).

Água com gás causa cárie?

Água com gás pura (sem adição de açúcar, ácido cítrico ou aromatizantes) tem pH levemente ácido (em torno de 5,5), mas estudos indicam que seu potencial erosivo é muito baixo e não representa risco significativo para o esmalte dental. Refrigerantes e águas saborizadas, por outro lado, contêm ácidos e açúcares que contribuem para a desmineralização.